8.2.10

e-mail para um amigo viajante


Meu querido,
acabo de jantar e acabo ruminando a nossa última conversa, que aconteceu antes da nossa despedida.
Amanhã, você partirá, não é mesmo? E eu ficarei por aqui...
Assim, depois de quebrar em pedacinhos todas as minhas palavras ditas para ti, gostaria de engolir tudo e não pensar mais. Saudade dói.
Por outro lado, acho que preciso repensar algo em mim, já que preciso ficar. E decido abrir uma pasta no meu micro para começar a fazer aquilo que acredito ser o meu melhor caminho: a escrita... sim, querido, quero ficar velha e escritora... Quero fazer da literatura o meu modo de ser, a minha vida... gostaria que as minhas palavras se encontrassem com o meu pensamento e expressassem o meu olhar para o mundo, como no dia em que reparei o horizonte do mar que se distancia sem nunca se aproximar de algum lugar.
Sabe, quero descobrir algo que ainda nem sei como é... mas, no fim, é mais de mim mesma, e mais um pouco do mundo ao meu redor...
Tudo isso parece balela? Sei não...
Mas, são palavras brotando em existir.
Um beijo e boa viagem!!!!
PS 1.: Volta logo... simplesmente porque, boas histórias só existem se há ouvintes... e não esqueça de trazer notícias do mundo de lá...
PS 2.: Acabo de descobrir que as palavras têm o poder de encurtar as distâncias, e quando você estiver há uma estrada daqui, me lerá, ainda assim. Então, me liga quando puder... Assim, o som de uma conversa rápida diminuirá a falta sua por aqui...

14.1.10

alma

para Didi

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor
E é com minhas ideias que tremo, com minha consciência de mim
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível
Que me esmago de ultratranscendente
E deste medo, desta angústia, deste perigo de ultra-ser
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!
Cárcere do ser, não há libertação de ti?
Cárcere do pensar não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma, nem morte nem vida nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos
Nós irmãos gêmeos dos Deuses todos de toda a espécie
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra
Sombra sejamos ou sejamos luz, sempre a mesma noite.

Álvaro de Campos

25.12.09

resposta para a falta de título da Maria

Maria,
Estamos quase no fim deste ano tão maluco.
Tantas coisas aconteceram. Tantas decepções... Talvez, se alguém perguntasse um título para este ano, chamaria de ano da decepção! Foi decepção com gente, com sonhos, com os desejos... com gente que se dizia amigo... e virou inimigo! Muitas máscaras caíram.
Mas, sabe, Maria... de tudo isso, ficou uma certeza, entre crises, decepções e sofrimentos, decobrimos mais e mais sobre quem somos frente à vida. E isso não é genial?!
E descobri que tenho um pé na falta de lugar certo neste mundão... Acho que entendo você. Coisas de sagitarianos! Mesmo que o meu seja só o ascendente...
Por isso, Maricota, sabemos muito pouco de como se colocar rótulos nas coisas! Porque categorizar algo diante da vontade de ser e não ser... seja lá ou cá... aqui ou acolá, fica complicado, né?!
A vida é muito maior que isso... os quatros anos de prisão liberta (= faculdade) nos provou isso.
Podemos pensar e fazer acontecer apesar dos rótulos: cineasta, filósofa?! O que nos importa?
Importa mesmo que estamos prontas, independentemente do jeito, e em qual lugar nos encontrarmos... mas, sempre distribuindo afetos...
Sagitarianos são impulsivos e muito amorosos! Precisam do mundo... e buscam lugares estratégicos e pessoas especiais para se alojarem!
Olha! 2.010 está aí... Espero encontrar duas mil e poucas maneiras de chegar em algum lugar!
Te ligo de lá, pra você me contar como anda perder-se e encontrar-se também!
Fique bem...
Day=)
Ps.: Será que nossas amigas ainda lêem nosso blog? hehe
Beijo!

11.12.09

Colocar Título

As vezes é melhor que seja assim de supresa. É tudo tão rápido. Arruma a mala e volta. Sem despedidas. Só escuto você passando de sunga. Abro os olhos perdida. Não me lembro mais o que fazia aqui. Esqueci minha rotina. Almoço antes do café e troco o jantar por uma prato de delírio. As luzes se acedem e fico no escuro. Não me vejo mais. Esqueço como procurar. Intercalo andar e parar. Encerrei 4 anos, agora vou voar. Sonhar todos os dias quando acordar. Tomar Sol quando dormir. Transformar o medo em vontade de ficar. Fazer fora de ordem, porque no fim sou eu quem vai montar. Estranho seria entender o tempo todo. Eu fico e mudo até ter que voltar.

22.10.09

feliz

De repente... mais que de repente, fica aquela sensação gostosa de chuva de verão sem muita explicação... água pra refrescar o asfalto seco e suavizar o calor da alta temperatura de dias ruins (quase infernais) de um passado longínquo!
Ai ai, esperei tanto.
A fase antiga foi tão doída.
Dor de não poder salvar a minha alegria e o meu amor do sopro da ilusão. Sentimentos perto de um suicídio cometido por quem não sabia mais a melhor forma de viver.
Era tudo tão árido, escuro... fechado de afetos.
Era o deserto por saber ser só na mais forte e desgastante solidão.
Eu vi o mar chorar naqueles dias.
O carnaval foi um desespero enfeitado de confetes e serpentinas suadas por minhas lágrimas.
Eu não reconhecia ninguém. Não reconhecia a minha vida dentro de mim.
Escondia-me atrás de letras de músicas, que pudessem mudar o tom do meu grito mudo... enquanto eu permanecia aprisionada na falta de luz do meu quarto infinitamente grande para a minha pequenez em compreender todo aquele pesadelo.
Agora, hoje, estou assim... levito na outra apresentada nos meus gestos inéditos, solenes ao prazer de sentir um novo gosto nestes dias tão meus.
Nem menina, mais mulher! Cheguei até aqui porque continuei acreditando na graça de viver ao outro e aos meus desejos de amar e ser e amar...
Por tudo isso, queria dizer a todos os meus amigos: espero tê-los no meu mais terno carinho sempre... sou um pouco de vocês, garantias de refúgio sincero... os vossos olhos foram a minha esperança e o meu resignar-me em simplesmente não desistir de ser feliz!

16.10.09

A gente evolui

A gente um dia evolui. Ainda não consigo acordar cedo e achar legal. Ainda não consigo ter uma rotina diária de exercícios. Ainda não plantei e vi nascer uma árvore. Ainda não tenho casa própria. Ainda não consigo entender algumas despedidas. Não consigo ser ser só sua amiga. Não consigo entender tudo sobre as novas tecnologias. Ainda acho triste não saber o que você esta fazendo da vida. Ainda não consigo comer comida japonesa. Ainda não consigo me entregar sem ter um pé atrás. Ainda não consigo andar de bicicleta. Ainda não consigo desenhar. Ainda não consigo parar de fumar. Mas ja consegui parar de roer as unhas. Um dia a gente evolui.

10.10.09

o vestido branco

Acordei de madrugada desejando ter um vestido branco. E seria de gaze. Era um desejo intenso e lúcido. Acho que era a minha inocência que nunca parou. Alguns, bem sei, já até me disseram, me acham perigosa. Mas também sou inocente. A vontade de me vestir de branco foi o que me salvou. Sei, e talvez só eu e alguns saibam, que se tenho perigo tenho também uma pureza. E ela só é perigosa para quem tem perigo dentro de si. A pureza de quem falo é límpida: até as coisas ruins a gente aceita. E têm um gosto de vestido branco de gaze. Talvez eu nunca venha a tê-lo, mas é como se tivesse, de tal modo se aprende a viver com o que tanto falta. Também quero um vestido preto porque me deixa mais clara e faz a minha pureza sobressair. É mesmo pureza? O que é primitivo é pureza. O que é espontâneo é pureza. O que é ruim é pureza? Não sei, sei que às vezes a raiz do que é ruim é uma pureza que não pôde ser.

Acordei de madrugada com tanta intensidade por um vestido branco de gaze, que abri meu guarda-roupa. Tinha um branco, de pano grosso e decote arredondado. Grossura é pureza? Uma coisa sei: amor, por mais violento, é.

E eis que de repente agora mesmo vi que não sou pura.

["A descoberta do mundo", Clarice Lispector; p. 82 ]



[imagem: por Ciça Maria]